
A Fisioterapia Social é uma designação criada (Peixoto, 2025) representativa de uma nova identidade profissional que eleva o fisioterapeuta a agente de transformação, focando a sua atuação na estrutura da sociedade e não apenas no indivíduo.
Esta abordagem surge face ao colapso epistemológico do modelo biomédico na saúde contemporânea e à urgência de expandir o mandato da profissão para a esfera sociopolítica. Ultrapassando a matriz do modelo biopsicossocial, o fisioterapeuta social afirma-se como um elemento ativo em diversos contextos, utilizando ferramentas estratégicas de conhecimento como a Sociologia, a História e a Filosofia para a sua ação.
Em sintonia com a revolução intelectual da Critical Physiotherapy Network (Nicholls et al., 2023), a Fisioterapia Social constitui a resposta estratégica ao desafio biomédico, propondo uma redefinição profunda do papel do fisioterapeuta na sociedade do século XXI.
O Conceito

A Fisioterapia Social fundamenta-se na convergência entre o legado histórico da Medicina Social e o pensamento crítico contemporâneo.
Mais do que uma nova área técnica, propõe uma reorganização identitária profunda, visando legitimar a profissão com um papel ativo e decisivo na esfera social e política.
Originalidade do assunto
A Fisioterapia Social distingue-se por uma abordagem inovadora sobre o poder e a identidade profissional. Enquanto muitas correntes contemporâneas sugerem a dispersão da profissão em nichos isolados, a nossa proposta é inversa: defendemos a unidade disciplinar como via para a relevância política.

A nossa originalidade assenta em três perspectiva estruturais:
1. Poder através da coesão (versus fragmentação) Rejeita-se a ideia de que a profissão deve diluir-se em “1000 fisioterapias” (Nicholls et al., 2023). Argumenta-se que a autoridade política e social só se conquista através de um corpo profissional coeso e disciplinado. Só uma fisioterapia unida tem o capital simbólico necessário para se sentar à mesa das decisões políticas e influenciar o desenho da sociedade.
2. A ciência como linguagem de poder A Fisioterapia Social é, acima de tudo, uma perspectiva científica (Verde, 2022). A independência da profissão depende do rigor que está na sua origem e corpo de conhecimento. Afasta-se de qualquer deriva metafísica ou pseudocientífica, defendendo que a Ciência (sociológica, histórica e clínica) é a ferramenta que legitima o fisioterapeuta perante os Estados, organizações e os cidadãos.
3. O agente social: Não se impõe um papel; é apresentado um novo patamar à profissão que pretende atribuir ao fisioterapeuta o seu direito à autonomia profissional para redefinir o seu próprio impacto no mundo. Podendo cumprir um caminho por áreas distintas como a Antropologia, a Filosofia, a Biotecnologia, entre mais, com relevo em acrescentar capacidades à sociedade, atribuindo ao fisioterapeuta um papel de transformação multifacetado.
Quem é o “fisioterapeuta social”?

O fisioterapeuta social é o arquiteto social da saúde moderna.
Ao contrário do “técnico invisível” (Shapin, 1988) que apenas executa tratamentos, este profissional assume-se como um agente ativo de transformação, munido de rigor científico e consciência política (Peixoto, 2025).
Os alicerces estratégicos da sua atuação:
- Unidade e disciplina: Rejeita a fragmentação da profissão. Entende que só um corpo profissional unido e disciplinado tem a força política para influenciar a sociedade.
- Tradução do sofrimento: Tem a capacidade de transformar a dor individual dos pacientes em saber político mensurável. Ele usa dados para mostrar aos decisores que uma “dor de costas” é muitas vezes sintoma de más condições laborais ou de transportes inadequados.
- Arquitetura social: Intervém diretamente no desenho da sociedade. Atua no planeamento urbano, na ergonomia e na acessibilidade, eliminando as barreiras físicas e sociais que geram incapacidade.
- Liderança ética: Inspira-se em figuras de relevo da sua sociedade para assumir cargos de liderança e poder na esfera pública, usando a sua autoridade de agente social para defender o bem comum.
O fisioterapeuta social pode produzir arte?

Sim. Mais do que um direito, a expressão artística é uma extensão da sua visão pessoal.
O fisioterapeuta social distingue-se por integrar as humanidades na sua identidade. Da mesma forma que possui a competência técnica para reabilitar um bailarino ou analisar a ergonomia de um escritor, ele tem a sensibilidade para ser, ele próprio, um criador.
Seja através da poesia, da pintura ou da escultura, o fisioterapeuta social utiliza a arte para expressar culturalmente o seu conhecimento sobre o corpo e a dor.
É pretendido alterar o nome de Fisioterapia para Fisioterapia Social?

Não. A Fisioterapia Social não é uma mudança de nome, é uma expansão de identidade.
O título profissional mantém-se. A Fisioterapia Social define uma forma de estar e de atuar na profissão.
O fisioterapeuta continua a ser um especialista em saúde, mas ao adotar esta perspectiva, escolhe comportar-se como um agente social. Ou seja, ele não deixa de ser clínico, mas transcende a técnica para assumir um compromisso ativo com a transformação da sociedade.
Não se trata de deixar de ser fisioterapeuta; trata-se de escolher ser um fisioterapeuta social.

Referências bibliográficas
Peixoto, J. A. (2025). The “Social Physiotherapist”: A critical and historical perspective on professional identity [Preprint]. Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.17693409
Nicholls, D. A., Ahlsen, B., Bjorbækmo, W., Dahl-Michelsen, T., Höppner, H., Rajala, A. I., … & Maric, F. (2023). Critical physiotherapy: A ten-year retrospective. Physiotherapy Theory and Practice, 40(1), 1–15.
Shapin, S. (1988). The invisible technician. American Scientist, 76(6), 554–563.
Verde, G. (2022). Rehabilitation methodology and strategies: A study guide for physiotherapists. Springer Nature Switzerland AG.

